segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Homem não faz isso

Era um programa na televisão, desses programas populares, muitos sorrisos fáceis, gentilezas postiças, tudo leve, o mais gracioso possível. Agora é assim, ninguém pode falar sério, se o fizer que o faça sorrindo… Verdades, durezas nuas e cruas, ah, isso não, isso está fora da grade de programação das emissoras. Tudo tem que ser leve, sem qualidade, bem ao gosto e cara do telespectador maioria…

Mas como disse, era um programa de televisão onde tentavam falar sério, falavam sobre endividamento. A meu juízo, nada é mais sério do que falar de educação financeira, controle emocional diante dos ímpetos de consumo, essas coisas, enfim, que têm levado multidões ao sofrimento por confundir desejos com necessidades. Desejo eu tenho de ir ao Sudão, mas é só desejo, não necessidade. Necessidade eu tenho é de alimentar-me, isso sim. Desejo é uma coisa, necessidade é outra. Enfim, entre sorrisos, discutiam endividamento.

Todas as pessoas entrevistadas contavam, entre sorrisos, no que se tinham endividado. Todos davam suas explicações, fiz uma viagem, comprei carro, comprei roupas caras, isso e mais aquilo. Foi aí que uma morena contou que se endividou porque decidiu trocar toda a sua cozinha. Todos riram. Eu fiquei sério. Só não levantei da cadeira para dar um beijo nela porque beijaria a tela da tevê…

Por que fiquei tão aceso com o “endividamento” da moça morena? Porque ela se endividou tipicamente como mulher, pensou na casa dela, pensou na cozinha da casa dela, na família, homens não fazem isso. Os bermudões se endividam com besteiras, como crianças com pirulitos. Já a mulher não, ela pensou na casa dela, na cozinha, exatamente no lugar onde está o cérebro da casa. Não é no quarto do casal, não; no quarto estão as rotinas, as grandes decepções, os inesquecíveis desacertos, as impotências existenciais… Mulher que se endivida gastando na casa tem a minha admiração. Homem não faz isso.

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