sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Um único Modo

Volta e meia, lá vem ela de novo. Impossível deixar de pensar nela, impossível. Ela nos está no pensamento o tempo todo; então, vamos combinar, leitora, às vezes dá vontade de desistir, é mesmo muito difícil ser feliz. A felicidade me faz lembrar visita de médico, vem, fica poucos minutos e vai embora. Dá-nos um "tchauzinho" e até à próxima visita.

Não me tinha olhado no espelho, mas devia estar com cara de papel amassado, sem graça nem muito ânimo. Quase sem pensar, levei a mão ao calendário para atualizá-lo, estava ainda na folha de outubro. Rasgada a folha de outubro, apareceu um trecho de poema de Carlos Drummond de Andrade. Dizia assim: -“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade…” Claro que a frase não é de Drummond, ele deve tê-la lido de alguém muito velho, provavelmente leu dos antigos pergaminhos da história humana. Mas a frase é incompleta. Vou-me atrever a completá-la, fica assim: – “Ser feliz sem motivo é a – única – forma autêntica de ser feliz”. Bah, quantas vezes já escrevi isso aqui? Os budistas sabem bem dessa verdade.

Quando nossa felicidade tem motivos, ela não é felicidade, é dependência. Explico. Quando nossa felicidade depende de algo ou de alguém, pronto, acabou-se, já estamos outra vez no muro das lamentações da vida.

Mas é claro, se esse “algo”, se esse “alguém” nos sumir da vida, sumir-nos-á também a felicidade. Daí que a verdadeira felicidade só pode mesmo ser sem motivo, estou feliz e pronto, não preciso de nada nem de ninguém para me sentir feliz.

Ocorre que somos ensinados no berço a colocar a nossa felicidade “lá” e “então”, isto é, em outro lugar e em outro momento, nunca estamos felizes aqui e agora. E esse aqui e agora é tudo o que temos. Eu estava desistindo, não estou mais, você me justificou a felicidade. Como? Estando comigo até agora. Viu, dependi de você…

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