segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Um banho de fúria

Entrei para o banho e, claro, antes de ligar o chuveiro, liguei o rádio. Liguei onde estava e onde estava ficou, na mesma frequência, na mesma rádio, ah, para quê… Ah, mas preciso dizer que quando liguei o rádio tocava uma música de violinos que parecia vir do céu, foi por isso que deixei naquela rádio que eu nem sabia qual era.

Bastou-me, todavia, entrar no banho para que a música parasse e viesse um atrapalhão – é assim mesmo a palavra, atrapalhão – falar em nome do senhor, não sei de que senhor ele falava, mas falava muito do tal senhor… A certa altura, o biscateiro pôs-se a falar de pessoas com as vidas enroladas, tumultuadas, cheias de encrencas, doenças, pobreza, tudo, e dizia que tudo isso era o resultado de forças do mal. E que essas forças do mal podiam ser mandadas embora, para isso bastava que o ouvinte… E dizia o que tinha que fazer.

A que forças do mal o analfabeto se referia? Não existem forças do mal senão as que vêm da própria cabeça da pessoa. Nenhuma força externa me vai derrubar se a minha cabeça não me derrubar antes. Mas vá dizer isso para os broncos, vá. É por isso que os do trambique vivem cheios de dinheiro nos bolsos; claro, vivem à custa dos pobres tapados. Força do mal só há uma: a que está na minha cabeça, na tua, na dele, na do padre ou do pastor… Precisei terminar o banho para desligar o maldito rádio…

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